sábado, 19 de dezembro de 2020

Little fires everywhere(Pequenos incêndios por toda parte)/ Resenha

  



 Série de TV americana em oito episódios lançada em março de 2020, que você pode assistir no streaming da Amazon Prime.  É, simplesmente, uma pequena obra de arte que, como o próprio nome indica, espalha um pouco de fogo nas nossas mentes míopes e acomodadas. Baseada no livro homônimo escrito por Celeste Ng, conta com direção primorosa de Liz Tigelaar e elenco de peso.

   Reese Whiterspoon(Elena) e Kerry Washington(Mia) dão vida às duas mulheres tão diferentes e tão profundas nas suas várias camadas do ser: família, trabalho, segredos, amores deixados para trás e escolhas que determinam as histórias de ambas. Essas histórias se entrelaçam, e de forma surpreendente o arcabouço nos permite enxergá-las por vários ângulos, nos levando a questionar até que ponto, ou de que estreito ponto de vista, conhecemos a nós mesmos e a vida que escolhemos.

  A série se passa no final dos anos 90, com vários flashbacks. Elena é a dona de casa perfeita. Uma mulher branca de classe média americana, casada e com quatro filhos adolescentes. Seu lema é: “sem regras não se consegue ter uma boa vida”. Montou para si uma rotina totalmente enquadrada nos padrões sociais, a ponto de ter datas até para fazer sexo com o marido: só as quartas e sábados. Ela é “do bem”, politicamente correta, acolhe os afro-americanos como se fossem da família, frequenta chás de caridade, ama os filhos e se considera uma excelente mãe. Mas um terremoto acontece na vida de Elena com a chegada de Mia e as máscaras vão caindo uma a uma até chegar ao final sensacional.

  Mia é uma artista negra e misteriosa, que conhece muito bem sua posição na sociedade americana dos anos 90. Tem uma filha e as duas vivem uma vida nômade, mudando constantemente de cidade. Faz sexo casual, evita qualquer relacionamento amoroso, e fuma maconha enquanto trabalha. As duas chegam em Shaker Heights, pequena cidade de Ohio, e Mia vai trabalhar na casa de Elena.

 As coisas vão acontecendo entre elas e suas famílias. Como alguém desenrolando um intrincado novelo de lã, o diretor vai nos desvelando os segredos das duas e principalmente o contraste entre elas. A ponto de nos fazer perceber que o que procura ser correto, pacífico e bem resolvido pode ser tão cruel e destrutivo quanto o que é rebelde e cheio de furor. Não existem inocentes, afinal.

  Em suma, não é uma série para quem quer apenas se divertir porque o rio é mais fundo do que parece, e a qualquer momento, podemos nos ver refletidos nele. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Bruxaria no Caminho

  



   Nós já estávamos caminhando há sete horas, quase vinte e cinco quilômetros em terreno difícil e eu estava exausta, suja de lama e molhada. A chuva nos pegou na trilha no meio da mata fechada, na subida íngreme até Villafranca del Bierzo. Eu estava meio receosa, não queria voltar aquele lugar. Ali vivia Jesus Rato, o bruxo. Em boca miúda, se escutava entre os peregrinos as histórias estranhas sobre ele e seus poderes mágicos, coisas que estavam muito além da minha limitada compressão, mas das quais havia participado na minha primeira aventura no Caminho de Santiago. No último albergue onde paramos, durante a noite, só se falava em Jesus Rato e os rumores percorriam o alojamento.
- Acho que não quero parar em Villafranca, não sou muito chegado à bruxaria.
- Que bobagem, Marcelo, vamos embora, não dá para pular partes do Caminho.
- Vá você então. Um amigo me contou que aquele homem tem poderes tipo telepatia, faz coisas se movimentarem na nossa frente, dá vida a objetos, entra em transe. Isso não é coisa de Deus! Afinal, estamos num Caminho sagrado. Por lá, eu não passo.
- Tudo bem.  Amanhã cedo eu e Celinha pegamos as mochilas e subimos para Villafranca, e você, Marcelo, vai de carona com um dos peregrinos de bicicleta direto para o Cebreiro. Nos encontramos lá em dois dias.
   Devíamos ter feito o mesmo, mas nosso pequeno grupo foi direto para a toca do leão, quer dizer, do bruxo. Chegamos ao entardecer.  O albergue era enorme, uma construção branca com grandes janelas e portas. Ficava no topo de uma encosta cercada de uma mata fechada e muito verde por causa da chuva torrencial dos últimos dias.  Da porta da cozinha, se vislumbrava, de um lado, parte da trilha que percorremos, do outro, se via o pico da montanha e o íngreme caminho que enfrentaríamos no dia seguinte. Uma névoa cobria toda a paisagem e subia um cheiro de mato e terra molhada. 
   As mochilas ficaram na entrada e em poucos minutos estávamos na grande mesa de jantar. Eu já estava acostumada com a festa dos peregrinos ao chegar em cada albergue. A comida era sempre farta, assim como o vinho. Depois de um dia caminhando as pessoas chegavam com vontade de comer, beber e conversar. Davam um jeito de se entender em várias línguas. Eu, sinceramente, sempre suja, esfolada e maltratada, preferia ir direto para os alojamentos e descansar. Mas, o que fazer? Não tinha essa prerrogativa. Participava da euforia calada.
   Logo depois do jantar, enquanto todos conversavam animados, um silêncio mortal baixou naquele lugar e todos os olhares se dirigiram para a porta da cozinha. Entrava Jesus Árias Rato. Mesmo para os que não o conheciam pessoalmente, sua figura era bastante conhecida. O que chamava mais atenção era sua altura, devia ter quase dois metros. No mais, parecia um camponês comum do norte da Espanha, com a pele queimada e enrugada pelo sol, cheirando a ovelhas e galinhas.  Mas sua personalidade era magnética, até para mim que não sou muito sensível a essas coisas. Era impressionante o poder que ele exercia em todos. Aos poucos, a conversa foi retomando e Jesus Rato veio direto para o nosso lado e começou a conversar com as pessoas do nosso grupo. Embaixo da mesa, eu tentava me espichar para escutar o que falavam. estava preocupada com minha dona, não queria que ela acabasse enredada nos poderes do bruxo, que eu conhecia tão bem. Mas não houve jeito, em certo momento ele se dirigiu a ela.
- Hola Señorita, usted tiene las rodillas mui hinchadas, que tal uma massaje? Tengo uma hierbas mui poderosas!
“Não, por favor Binha, não vai cair na conversa desse bruxo.” Eu sabia que ela estava com o joelho inflamado desde Pamplona, e a culpa não era minha, seus pés não tinham nem uma bolha. Minha dona o olhava com cara de paisagem.
- Muchas veces, cuando sentimos uma dolor profunda nel corazon nuestras rodillas sufrem tambien. Pero, non te olvides que el verdadero comienzo de tu peregrinación es la puerta de tu casa, en el momento em que la transpone para iniciar el Camino de Santiago. Tu alma ya tomó la decision, toca a usted seguir la o no.”
“Ele está te enrolando! Levanta agora dessa cadeira.” Eu já começava a me desesperar mas infelizmente, não me foi dado o poder da fala. A voz dele era baixa e monótona. Já estava acontecendo! Binha tinha os olhos parados e não respondia. Ela estava hipnotizada e ninguém em volta havia notado. 
   Não se passaram cinco minutos e ele nos levou para uma sala ao lado da entrada e pediu para Binha tirar o casaco e a bota. Fui colocada numa sapateira enorme perto da porta, junto com outras dezenas de botas sujas e com cheiro de queijo estragado, grudando seu couro coberto de lama em mim, insuportável. Triste sina a minha. Ele havia me dado os cinco sentidos, e o poder do entendimento, mas eu não podia falar ou me mover. Por que ele não me fez o serviço completo? Por que não me aposentaram depois da primeira viagem? Por que tive que ser emprestada para outra peregrina? Botas são muito pessoais, não deviam ser emprestadas para ninguém!
   Depois de muito tempo, Jesus Rato saiu da sala. Eu estava ansiosa para ver como Binha estava. Não duvidaria se ela saísse ainda hipnotizada, ou pior. Será que se lembraria de mim?  Esperei durante intermináveis minutos, depois horas, mas ela não saiu! Só na manhã seguinte as outras pessoas do grupo sentiram falta dela, não a haviam visto no alojamento, procuraram em todos os lugares. Sua mochila tinha sumido também, e chegaram à conclusão que Binha tinha saído mais cedo para a próxima trilha. Mas eu estava ali, ainda naquela sapateira, e ninguém reparou. “São Tiago, tem misericórdia da minha dona e de mim!”
   Depois do reforçado café da manhã, todos se prepararam para enfrentar mais um trecho do Caminho. Com as mochilas nas costas calçaram as botas e partiram.  Eles estavam nos abandonando. O albergue ficou vazio a espera da próxima turma que deveria chegar ao entardecer. Vazio, não exatamente, porque Jesus Rato vagava por ali com ar sinistro e o vi tirar alguma coisa de dentro do armário da sala. “Será a mochila da Binha?”
   Mas se ele a transformou num pássaro ou se a transportou para outra dimensão, eu nunca iria saber.  Fiquei sozinha na sapateira com uns chinelos velhos e retorcidos, todas as minhas companheiras já haviam sido resgatadas pelos donos. O bruxo também não havia me dado o poder de chorar, tive que engolir algumas amargas lágrimas cano abaixo.  Só me restava esperar os próximos pés. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Uma façanha no tempo



                                     
   No momento em que ele desferia mais um golpe de espada em um dos desalmados disfarçados em ovelha, algo inusitado aconteceu comigo e meu indômito cavaleiro. Primeiro ele sentiu um tremor por dentro de sua armadura e então uma espécie de vento imóvel nos suspendeu no ar como magia, o que nos deixou atordoados.  De repente, nós estávamos em um outro lugar.
   Não tinha nem nome para aquilo! Uma multidão de pessoas com roupas de tecidos finos e coloridos caminhavam, sem armas, e aparentemente também sem propósito ou direção. Velozes cavalos de ferro se movimentavam tão rápido como flechas de um lado para o outro, quase passando por cima daquela gente. A aldeia era enorme, e construções, mais altas que as torres de qualquer castelo, escondiam os céus.  Mal podíamos ver uma nuvenzinha aqui e ali. Um barulho ensurdecedor parecia vir de todos os cantos e o ar daquele lugar, urghh... era pior que o do estábulo mais sujo! E olhem que disso entendo bem. 
   As pessoas nos olhavam de um jeito esquisito e com um sorriso nos lábios. Meu amo percebeu, estupefato, outras pobres criaturas humanas nas barrigas daqueles cavalos de metal, se comportando como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. “Por todos os demônios, onde viemos parar, Rocinante?”
   Sim, meus senhores, me chamo Rocinante, e vou continuar a lhes contar o que veio a ser a última grande façanha do meu amo, Dom Quixote de La Mancha.   
   Fomos parar no meio de uma grande via e nunca havíamos visto algo igual. Não pude esconder minha agitação, e meu primeiro impulso foi sair em disparada. Meu cavaleiro tentava me controlar e ensaiava movimentos grandiosos com sua lança como se preparando para qualquer possível duelo. “Mas contra qual desses pobres coitados fomos destinados a combater, meu amigo?”. Por mais que o ambiente todo nos fosse bastante estranho, não me parecia que ninguém se atreveria a atacar Dom Quixote, assim sem etiqueta nem hora marcada. “Por Deus, essa horda de selvagens deve ter um algum código de honra!” 
     E, caros senhores, sem falsas modéstias, apesar de muitos dizerem que pareço mais um pangaré, minha inteligência é acima da média para um rocim e meu sexto sentido sempre nos guiou pelos caminhos de trevas. Por isto, logo compreendi que estávamos em outro momento no tempo. Vendo esses dois mundos que se entrelaçaram, os senhores podem cogitar como será que nossa dupla era vista pela horda de selvagens. Ora, eles tinham olhos fugidios, mas não deixavam de nos observar com curiosidade.  Afinal, um cavaleiro empunhando uma lança e montado neste garboso animal que vos fala, não era uma cena comum naquele século.                   
   Mas as atenções não se demoravam muito sobre nós. Parece que aquele povo não podia se deixar distrair, não conversavam uns com os outros e não tiravam os olhos de umas misteriosas caixinhas pretas mesmo enquanto comiam ou andavam. Todos eles tinham pelo menos uma nas mãos. De dentro das caixinhas saiam palavras que não faziam sentido e a elas todos obedeciam. “Não sei que lugar é este, mas sei que as pessoas aqui são escravas das pequenas caixas!”, podem ver que não precisou de muito tempo para meu amo, sempre em busca de aventuras, chegar a essa conclusão, prenunciando mais uma das suas grandes façanhas pela frente, a derrubada da tirania das caixas pretas e o fim da escravidão para os cidadãos daquele condado. 
   Com a mesma velocidade com que o engenhoso fidalgo identificou centenas de súditos a serem salvos, ele soltou a espora nos meus maltratados lombos e partiu para o ataque aos cruéis opressores.  Para Dom Quixote, não interessava mais onde estávamos, só o que via pela frente era a iminente batalha contra um exército de poderosos inimigos, de onde saiam vozes perturbadoras, e que precisavam ser abatidos.
   A partir daí, tudo se resumiu a um salve-se quem puder. Voaram estocadas de lança para todos os lados, caixinhas pretas foram ao chão, pessoas desesperadas se jogavam atrás delas, eu relinchava e distribuía coices tentando ajudar meu amo, enquanto este desferia golpes certeiros, destruindo dezenas das caixas.  Eu conhecia muito bem aqueles seus olhos fundos e vidrados que brilhavam ao vislumbrar as glórias da batalha.
  Mas, para não nos desviarmos da verdade nem um til, é preciso dizer que passados alguns minutos, esse pobre cavaleiro começou a sentir o peso da idade e do cansaço. Me perguntei se ele estava sentindo falta do seu fiel escudeiro. Depois de tanta confusão ele notou que as caixas pretas se multiplicavam juntamente com as pessoas, e essas já eram muitas a fazer plateia para tão extraordinário combate.
  Meus senhores, aquela era uma verdadeira encruzilhada onde nos encontrávamos. Dom Quixote lutava bravamente desferindo bordoadas cada vez mais fracas e eu o sustentava como podia, mas logo percebemos que estávamos fadados a uma derrota vergonhosa, pois crescia o número de indignados cidadãos procurando defender suas caixas a qualquer preço.  De indignados eles tornaram-se furiosos com nossa insistência e resolveram partir para o ataque a este que vos fala e ao nosso cavaleiro andante, que a essa altura mal conseguia permanecer no meu lombo. Nem ele, nem eu, entendíamos por que essa gente amava tanto seus opressores. 
  De repente, chegaram as pessoas armadas e a correria aumentou. Meu amo não percebeu, eram armas pequenas e só depois eu vim a saber como eram mortais. Ele continuou suas estocadas com a lança tentando acertar as caixinhas pretas, e sem se dar conta foi atingido no peito pelo fogo do inimigo. Senti seu peso sendo aliviado do meu lombo, escutei o baque do seu corpo no chão e a gritaria da horda de selvagens. 
  Uma das mulheres da plateia se aproximou do cavaleiro abatido e se ajoelhou próximo a ele.  Mas para meu amo aquela era ... “Dulcinéia, Dulcinéia, senhora dos meus sonhos, mas talvez não tenha sido um sonho, pois estás ao meu lado agora, e sua presença enche a morte de doçura.”, ele sussurrou quase inaudível. Com certeza, a mulher não entendeu as últimas palavras do moribundo, que recostou a cabeça no seu colo e, sorrindo, despediu-se dessa vida em busca de novos embates.
   Meus senhores, dessa forma se findou o grande Dom Quixote de La Mancha, no campo de batalha lutando contra tiranos, opressores e homens violentos, não numa cama como dizem as más línguas. Nunca o cavaleiro da triste figura pareceu tão triste. Seu corpo magro e sem vida estava jogado num chão sem terra para apará-lo ou para enxugar o sangue que lhe escorria do peito.  Longe do seu tempo e lugar, fora vencido pelos tiranos do futuro, o mais impiedoso de nossos adversários.
   Eu me sentia desolado e se fosse humano teria chorado. Além de estar perdendo meu amo, eu temia pelo meu destino nesse mundo. Pela primeira vez duvidei de tudo que durante anos escutei da sua boca e pensei se este seria o fim daqueles que ousavam perseguir sonhos impossíveis, vencer batalhas imbatíveis e alcançar estrelas inalcançáveis.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Jonas e o espelho




Quando Jonas estacionou o carro na porta da leiteria, percebeu que apesar da hora, a rua ainda estava movimentada. Alguns casais de namorados passeavam de mãos dadas e guardas noturnos faziam suas rondas habituais. Olhando para os lados, cogitou se deveria levar seu plano adiante. Mas, depois de alguns necessários minutos, suficientes para deixar alguns bilhetes no porta luvas para os amigos mais próximos, pegou a grande bolsa cor de rosa atrás do banco do motorista e saiu. Deixou a chave do carro no painel, bateu a porta e caminhou para a loja de brinquedos que ficava na esquina com o beco, ao lado da leiteria. É bem verdade que atraiu olhares curiosos no caminho, afinal, ele estava vestindo um pijama azul marinho com bolinhas vermelhas, de calças e mangas compridas e uma pantufa branca. Seus cabelos e barba compridos e desgrenhados, e um olhar sorridente fixo na sua bolsa cor de rosa, completavam o visual. Alguns poderiam jurar que ele tinha acabado de sair do manicômio.
Bastou alguns passos para que chegasse na porta da loja de brinquedos artesanais, que estava obviamente fechada aquela hora da noite. Por fora, ela parecia uma dessas lojas antigas e apertadas, com uma porta de madeira maciça e duas pequenas janelas laterais com cortinas de renda. Em cima da porta, um grande letreiro colorido dizia: “A NAVE- venha realizar seus sonhos”. Jonas parou encostado na porta por alguns segundos e quando percebeu que não era observado girou lentamente a maçaneta em sentido horário. A porta entreabriu-se e por ali entrou nosso estranho personagem.
Mas vamos voltar algum tempo atrás, por que nosso amigo foi parar ali aquela noite?
A vida de Jonas era como a da maioria das pessoas naquela cidade. Era uma cidade estranha, no meio do nada, com pessoas estranhas que gostavam de vigiar seus vizinhos e tinham sempre um caderno onde anotavam tudo que viam de diferente. Talvez porque não havia espelhos na cidade, uns estavam sempre olhando para os outros, mas não eram capazes de olhar para si mesmos. Por isso, os cidadãos daquela cidade faziam o possível para não chamar a atenção. Alguns estudos haviam sido feitos há muitos anos atrás, na época do avô de Jonas, para tentar explicar por que todos os espelhos que chegavam na cidade espatifavam-se em mil pedaços, misteriosamente. Nenhum deles chegou a uma conclusão plausível e assim, aqueles que faziam questão de ver seus rostos pela manhã haviam se mudado dali. Ficaram os que não se importavam, aqueles que preferiam não ver, e eram muitos!
Mas Jonas nasceu ali e estava acostumado à rotina da cidade e a uma vida sem espelhos. Ele agora tinha mais de 30 anos mas nunca pensara em se casar ou ter filhos e se considerava feliz, apesar dos seus dias serem monótonos como um disco de vinil arranhado.  Ele mesmo fazia suas refeições, lavava suas roupas e limpava sua casa. Durante a semana, procurava se concentrar no seu trabalho no banco.  Tinha saúde, seu salário estava na conta ao final de todos os meses e seu pequeno apartamento era confortável. Alguns poucos amigos completavam o quadro da vida de alguém que parecia satisfeito consigo mesmo. Só uma coisa incomodava nosso amigo de vez em quando. Ele nunca havia visto seu rosto. 
Fora alguns pesadelos ocasionais nos quais ele sempre se perdia no meio de uma multidão sem identidade, tudo ia bem na vida de Jonas. Até que uma noite, ele já estava quase dormindo quando a campainha tocou. “Quem será a essa hora?”
Levantou sonolento e abriu a porta. No chão estava uma caixa grande de papelão com o timbre dos correios, mas sem o remetente. De princípio, ele achou que era algum engano, mas logo viu seu nome na etiqueta - Sr. Jonas M. Gregório.
Relutante, levou a caixa para dentro do apartamento, e não abriu de imediato. Perdeu o sono, pensou muito... Como se soubesse que ali poderia haver algo terrível. Até que resolveu abrir a caixa que estava completamente selada.
Cortou toda a fita adesiva e retirou de dentro uma bolsa cor de rosa meio brilhante. Lentamente abriu o zíper e espiou.
Soltou um grito abafado se afastando da caixa como se fosse uma mola solta. Se jogou no sofá da sala e finalmente foi parar no chão. “Meu Deus, que horror! Era... era um olho aquilo?  Sim, um olho arregalado, assustado! “
Depois de se acalmar um pouco, Jonas voltou a pegar a bolsa e tirou dela um bilhete escrito a mão e um pequenino espelho, intacto, para sua surpresa. Nele via refletido seu próprio olho. Era a primeira vez que olhava para qualquer parte do seu rosto. Sentiu uma emoção que não conseguia entender. Jonas estava maravilhado e ao mesmo tempo com medo. Abriu o bilhete que dizia: “Já é hora de você ver o mundo e se conhecer. Dirija-se agora para A NAVE”. O endereço estava em vermelho no final do bilhete, sem assinatura.
Dessa forma, nosso herói foi parar na tal loja, não antes de andar por uma hora pelo seu apartamento, cheio de dúvidas, com medo do que encontraria na NAVE. Mas ele, àquela altura, estava decidido. Ao abrir a bolsa, havia ultrapassado o ponto de onde poderia retornar e soube que sua vida mudaria para sempre. Jonas sentiu um desejo profundo e desconhecido até aquele momento. Precisava ver a si mesmo por inteiro, queria um espelho maior e queria sair daquela cidade onde as pessoas nunca se veem. Colocou de volta o pequeno espelho na bolsa cor de rosa, e saiu para o endereço indicado, pronto para o que viesse pela frente. Estava tão entusiasmado com a possibilidade de novas descobertas que não notou que ainda estava de pijamas.
Quando virou a maçaneta da porta viu uma luz muito forte que vinha de dentro. A loja era mesmo pequena e não havia nenhuma pessoa ali, só muitas estantes nas paredes cheias de brinquedos de madeira de todos os tipos: carrinhos, animais, casinhas... No centro da loja um espaço vazio, e uma luz branca extremamente forte iluminava todo o ambiente, vinda da parede no fundo da sala.  Nessa parede havia uma cortina marrom que se estendia do teto até o piso, com mais de um metro de largura. Mais do que o resto do ambiente, era essa cortina que chamava atenção de Jonas porque era onde a luz focava.
Jonas foi até ela e a abriu de supetão.
- Uau! Como você veio parar aqui?
Um homem enorme, de cabelos e barba compridos, vestindo um pijama azul de bolinhas vermelhas estava ali, na sua frente, com uma cara assustada!
- Quem é você?
Demorou alguns segundos até que Jonas percebeu que via sua própria imagem refletida num enorme espelho na parede, uma imagem cristalina e muito real. Aos poucos ele foi entendendo, abismado, e seu corpo foi se entregando ao chão. Sentou-se com a bolsa cor de rosa ao lado e ficou olhando para essa pessoa, não muito agradável, desorganizada, deprimida e sem esperança. Não gostou do que viu. 
Mesmo assim ele resolveu observa-la melhor. Chegou bem próximo ao espelho e fazia movimentos com as mãos que eram acompanhadas pela figura do outro lado. Movimentava a cabeça, abria e fechava a boca, balançava seus cabelos despenteados. Observou as rugas na sua testa, seu olhar triste e sem objetivo e notou uma marca na mandíbula esquerda. “Você não é feliz. Parece cansado e triste, mais velho do que eu sou”. Pensou na sua vida, no vazio que sempre tentou disfarçar.  Na frustração das amizades superficiais, do trabalho mecânico e na falta de propósito.  Faltava alguma coisa, sempre faltou. “Faltou você, cara! Você que eu não conheço e com quem eu nunca conversei.”
Desolado, Jonas encostou o rosto no espelho. Alguns segundos depois, sentiu o espelho vibrar em contato com sua testa. Ele ficou ali paralisado enquanto a vibração aumentava causando uma sensação de profundo bem-estar.  Jonas sorriu. O espelho o puxava e Jonas não resistia, simplesmente se deixava levar. Aos poucos, nosso amigo foi sendo absorvido, primeiro a cabeça, os ombros, braços, tronco e por fim as pernas.  Jonas sumiu dentro do espelho. A bolsa ficou jogada no chão e a loja de brinquedo ficou às escuras de repente. Silêncio, tudo era silêncio.
Na manhã seguinte, bem cedo, o rapaz que trabalhava na loja, ao chegar notou que havia alguma coisa diferente, uma bolsa cor de rosa no chão e uma grande cortina marrom na parede dos fundos. “Essa bolsa não estava aqui ontem. O que será que tem dentro dela?” enquanto pensava se encaminhou para a bolsa e ao abri-la soltou um grito assustado!  Dentro da bolsa havia um grande olho que o observava e um bilhete sem assinatura.







quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Vida e Morte Moçambique


Mortos pelo ciclone Idai se aproximam de mil em Moçambique e ...-


- Tranquilo, mano! Não passa nada. A tempestade já foi. Agora é só o vento a cortar o resto do teu teto de amianto, tamo junto.

- Tamo junto, sim, neste buraco medonho. Mas estás enganado, esta não se trata da minha casa, é minha cova. Nossa cova! 

- Pois não! Minha não é, não. O pior já pediu as contas.

- O mundo está acabando em cima da gente, Bota. Não sabes de nada.

- Escuta o ronco da tchopela a teimar na via esburacada, na lonjura, chapiscando no aguaceiro. Está tudo bem, mano.

- Estás escutando demais. Isso aqui é um silêncio e um breu mortal.  Não estou nem sentindo meu corpo! Está tudo muito estranho.

O pior já passou, mano. Quando começou a ventania  e a tempestade dos diabos cortou os céus clareando a noite e tudo desabou nas nossas cabeças, eu tive medo. Achei que por aqui findava os nossos dias folgados. Pois não é? Tu já percebeste como eram folgados aqueles nossos dias?

- Meus dias não eram folgados. Os teus sim eram folgados, também só passavas as horas a encostar no meu trabalho, pra ti sempre a melhor parte. Não me toca mais. Nossos dias vão se findar devagarinho, aqui nesse buraco dos infernos.

Para de falar desse jeito, Matunha! Nós havemos de sair daqui. 

- Podes sonhar quanto queiras. Daqui saimos os dois esticados e mortinhos, com a boca cheia de matope. 

-Pois não! Minha boca tá é sentindo o gostinho da chima que minha dona faz. Humm... que delícia! Será que tem um espacinho aqui? Joga isso pra lá...crrarck... levanta essa porta aqui...traarff...ufa! 

-Podes me contar o que estás a fazer? Palavreando sem parar. 

-Um espacinho para nossa fogueirinha. Agora é só encontrar alguma coisa para assar e mastigar. 

-Bota, olha bem, estás a se movimentar  mas tudo está como antes. Você não mudou nada de lugar  nesse buraco. E eu não sinto fome, nem nada. 

-É mesmo, parece um vazio. Eu também não tenho fome. Então acosta aí do teu lado e vamos prosear, mano, mastigar o tempo, enquanto não vem alguem nos tirar daqui.

- Eu tenho  uma coisa que preciso te contar sim, Bota. Deve ser por conta dessa situação sem solução que estamos a sofrer aqui, tu e eu nesse buraco. Estou aqui a pensar que talvez seja esta a melhor hora, tem muitos dias que estou a pensar e pensar em ti contar, tu és meu melhor amigo, não tem nada mais sagrado que nossa amizade, não é mesmo? Acho que essa...

 – Podes parar com esse lenga lenga e fala logo, camarada! Estou a te escutar.

- Trata-se de uma circunstância delicada, mano, aconteceu sem segundas intenções, eu e dona Zolinda, assim sem pensamento, mas com todo respeito, porque é tua dona, a dona do meu melhor amigo e eu...

- Desembucha, Matunha!

- Tu estavas noutro sítio, a viajar e ela estava assim... necessitada, entendes? Eu sou teu amigo, então só cumpri minha obrigação de amigo e foi rapidinho. Só uma vezinha de nada.

- Tu folgueou com minha dona, então. Se foi por uma necessidade eu entendo, mano. Estás a te preocupar atoa.  Isso também aconteceu comigo uma vez.

- Mano, que alívio! Sabes que sou teu melhor amigo.

 -E amigo é pra essas coisas mesmo. Sabe aquele domingo que fostes no Chimoio vender a TV que pegamos na casa do prefeito?

- Sim, o que houve?

- Tua irmã estava de passagem aqui na cidade, coitada, estava sozinha, muito necessitada...

- O que estas a dizer? Tivestes coragem de folguear com minha irmã? Vais levar txaia, seu desgraçado! Eu te mato! Vou arrancar teu coração e picar ele todinho! Vou comer ele assado nessa fogueirinha, seu....

- Para com essa gritaria, mano. Tu não vai fazer nada porque aqui não dá nem para esticar o braço, muito menos me matar. Deixa de lero lero. Então és meu melhor amigo ou não?

- Como foi acontecer uma coisa desavisada dessa? Tu não podias ter feito isso!

- Esquece isso, engole essa raiva e acosta aí no teu canto.  
         
Eu quero é sair daqui, Bota, quero ver o sol da Beira de novo. Gostava de trabalhar na minha machamba, sentir o cheiro do mato, mastigar uns cabritos, folgazar com as raparigas na praia. Até que tu apareceste me atentando para a vida de larápio, vida desassossegada e fugitiva.

- Vida muito emocionante, isso sim, mano! Não gostas de money? De comprar umas sapatilhas novas, uns jeans bonitos pra impressionar as raparigas, comer um frango zambeziano com piri-piri na beira da praia. Nós só corremos atrás das coisas boas da vida! Nunca gostastes mesmo de jobar. 

- Nós corremos foi pra trás das grades, duas vezes! E quase nos enchavearam de novo dessa vez. E nem conseguioms vender ainda esse ouro que roubamos aquele dia.

- Tu sabes há quanto tempo estamos aqui de gatas nesse buraco? Estou a perceber claridade la fora. Já deve ser a hora do  mata-bicho.

- Sei não, a gente perde a noção de tempo aqui dentro. Não tem fome, nem frio, nem dor nenhuma. E olha que esse teto caiu em cima da gente. Ainda estou achando muito estranho. 

- Matunha, estou a escutar barulho, te atenta! Vieram nos salvar.

- Estás a ouvir demasiado, mano. É só um silencio que me deixar surdo.

- Fica bem quietinho. É uma voz a chamar a gente. Chegou nossa hora! Daqui nos desacomodamos agorinha.  Vejo até uma luzinha lá no fim desse túnel. 

- Que túnel? Não, Bota! Não entra aí, não!

- Vamos os dois juntos. Preparado, homem? Só num pode ser a guarda, aí tamo frito!

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- Força, pessoal! Desanimação não vai ajudar, não. Levanta esse muro maior aí. Pode ter alguém embaixo. Emércio, mais corda, mano!

- Boss, mais de 10 dias já são idos desde o ciclone. Não pensas que já estava bem na horinha dessa busca parar? Já abrimos caminho para mais de 500 esperantes debaixo desse lodo e aguaceiro. Todos defuntos há muito.

- Não sou eu que dou a palavra final. Eles mandaram e é o que nós estamos a fazer. Tu pensas que já não estou cansado de desencavar dez, vinte, centenas desses pobres coitados? Estamos a tirar gente debaixo desses escombros, só para serem postos correndinho debaixo da terra, nos tintins, com flores e velas. Nisso não mando eu. Se assim fosse deixava sossegados esses. Vamos aí, força!

- Boss, estamos a conseguir aqui, abrimos um dos lados. Olha só! Mais dois para encher o purgatório, esticados e mortinhos, pelo jeito desde o dia do ciclone. Mas veja só essa caixa de madeira, boss, tá cheinha de ouro!!


Novo ciclone atinge Moçambique um mês após catástrofe que matou ...

 15 de Março de 2019, o ciclone Idai atingiu a costa de Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, matando mais de 600 pessoas. Precisamente Beira, cidade onde trabalhei por um ano e fiz muitos amigos,  foi o local mais atingido. 90% da cidade foi praticamente destruída. Ventos de mais de 170km/h arrasaram casas e provocaram alagamentos. Os 500.000 habitantes ficaram sem água e energia elétrica por semanas e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Epidemias de cólera e malária se sucederam ao ciclone. Um ano depois, a cidade ainda não havia se recuperado do trauma emocional nem dos danos materiais. 

Tchopela= Veiculo de 3 rodas a motor, aberto. Tipo tuc-tuc usado na India.
Matope= Lodo, barro.
Chima= Comida típica feita de farinha.
Tchaia= Porrada.
Machamba= Plantação
Jobar= Trabalhar(job)
Mata-bicho= Café da manhã




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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O homem do chapeu-coco








O homem caminhava lentamente de cabeça baixa, indiferente à chuva que começava a engrossar. Fechou sua capa e puxou a aba do seu chapéu-coco sobre os olhos.  A cidade àquela hora parecia morta e o silêncio só era cortado pelo barulho dos pingos d’água na calçada formando poças aqui e ali. Nenhum ruído da cidade grande, nem os gritos dos cocheiros nem o murmurinho dos feirantes.  As luzes dos lampiões da Baker Street refletidas nos paralelepípedos molhados deixavam a rua brilhante.  Chutou com força a caixa de correio no caminho e levou as mãos ao rosto sacudindo os ombros convulsivamente. Uma luz se acendeu na janela do prédio ao lado e um olho assustado surgiu por trás da cortina. Ele colocou as mãos no bolso da capa e continuou, de cabeça baixa, até o número 221B. 
Quando levantou a cabeça para abrir a porta da sua casa ele percebeu aquele vulto há cinco passos de distância. Nenhum sinal de surpresa ou sobressalto. Ele simplesmente virou-se lentamente abaixando as mãos e  olhou nos olhos frios da figura alta e magra que abria sua capa preta mostrando o cano da pistola nas suas mãos. 
- Enfim! É hora de o grande Sherlock Holmes encarar seu destino e pagar pelos seus erros. Não posso dizer que estou triste por ser pelas minhas mãos, muito justo. Afinal eu sou o maior prejudicado. Esperei muito por esse momento. Pareceu uma eternidade.
- Moriarty. 
O homem do chapéu-coco ficou imóvel e sua voz saiu metálica e distante, como se só o corpo dele estivesse ali.  Seus olhar parecia atravessar o  vulto, a chuva e noite escura. Olhava para onde?
- Eu sabia que você viria atrás de mim. Perdi o controle, eu não queria...
- Qual foi seu maior pecado, Sherlock? Você já pensou nisso? Quantos você deixou morrer porque estava inútil, sob uso de substâncias alucinógenas proibidas? Quantos você enganou e manipulou para se aproximar de mim, eu, simples mortal, sua obsessão? Quantas pessoas você iludiu e deixou na miséria porque pagaram por seus caros e pretensos serviços?
Enquanto falava, a figura da capa preta se movimentava em torno do homem do chapéu-coco, sem baixar sua pistola que apontava para o peito do seu inimigo. Esse o acompanhava no mesmo ritmo, girando o corpo por infindáveis segundos. Um corvo pousado no alto da soleira da porta de entrada assistia aquele balé silencioso e macabro. 
- Ou talvez seu maior pecado tenha sido o de hoje? Odioso e ignóbil pecado, esse vai te acompanhar até o inferno, para onde você vai logo. Ela era só uma criança, Sherlock! Você destruiu sua vida, todos os seus sonhos, todas suas esperanças! E o mundo todo vai saber o doente farsante que você sempre foi. Disso me encarrego eu, também.
- Eu não queria, meu Deus!
Essas foram as últimas palavras do homem do chapéu-coco. Naquele momento, ouviu-se um tiro seco, um grito abafado e o bater das asas de um corvo fugindo assustado do local. Ele não esboçou nenhuma reação, parecia estar esperando, ou melhor, parecia estar desejando aquilo. Será que por isso apontava insistentemente seu peito para a pistola?
Seu corpo caiu com um baque seco no meio fio, cabeça jogada nos paralelepípedos da Baker Street, uma poça de sangue na sua capa Mackintosh, um fio de sangue escorrendo por sua boca inexpressiva. O vulto negro sumiu na esquina mais próxima. Ninguém assomou às janelas, ninguém saiu à rua para ver o fim do homem do chapéu-coco. Chovia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A viagem


               

Depois de 225 dias de quarentena, praticamente sem sair de casa, ela precisava viajar. E agora? 
  Quando encontrou aquele e-mail na sua caixa de spam custou a acreditar.  Há mais de uma semana ele estava ali despercebido. Como assim, uma herança? Mas é o que aquela firma de advogados dizia: “Cara Sra. Manuela Aparecida de Lima, informamos a citação do seu nome no testamento do Sr. Gumercindo Eufrásio. É imprescindível seu comparecimento ao II Cartório de Imóveis de Capitólio até o dia 30 de abril, impreterivelmente.” Tinha o timbre da firma. Não era lixo eletrônico e nem golpe. A primeira coisa que Manuela fez foi telefonar para o número de telefone no e-mail e tudo conferia. 
 Ela teria que achar uma forma de ir. Segundo o e-mail, o Sr. Gumercindo, seu primeiro marido, que se tornou um rico fazendeiro após a separação, havia morrido subitamente e lhe deixou uns 20 acres de terra e 300 cabeças de gado. Tudo no valor de mais de 10 milhões de reais.  Manuela nunca tinha chegado perto de tanto dinheiro na vida.
- Joaquim, vamos arrumar as malas! Não vou perder uma herança. Parece coisa de conto de fadas. Mas não é.
- Calma, mulher. Primeiro vamos ver como chegar lá. Estou olhando aqui no Google. Temos que viajar de avião até Belo Horizonte. Um voo de 4 horas. E alugar um carro para chegar a Capitólio. 
- Aeroporto? Avião? Ai meu Deus! Já me dá taquicardia. E o vírus, Joaquim? Está em todo lado, principalmente em aeroporto, filas, aglomeração.
E Manuela começou a suar, suas mãos começaram a tremer só de pensar naquilo. Joaquim já sabia o que viria em seguida e procurou logo acalmar a mulher. Ele já havia quase se acostumado àquelas crises, que se acentuaram nos últimos meses.
- Bom, podemos deixar de lado essa história de herança e continuar quietinhos aqui na nossa quarentena que não acaba nunca. Não somos ricos, mas também não nos falta nada, não é mesmo?
- Acho que você está certo. Não precisamos sair correndo atrás de um pote de ouro, não é mesmo? Estamos bem aqui.
Ela respirou fundo e os dois tentaram tirar a fazenda de gado no interior de Minas Gerais do pensamento. Mas foi inútil. Algumas horas depois...
- Joaquim, pensando bem, é muito dinheiro. Nosso filho poderia ficar muito bem na vida. Nós precisamos achar uma forma de ir.
- De carro até lá, eu não vou! Nós teríamos que parar para dormir em hotéis no caminho e comer em restaurantes de estrada. Nem pensar. Além do mais, quando chegássemos lá, o prazo dado pelo cartório já teria passado. Hoje é dia 27, Manuela!
- Vamos de avião. Vou ver as passagens. 
Ela estava decidida. Compraram as passagens. Manuela dobrou a dose de vitamina D e Zinco, marcou uma consulta com seu psiquiatra e pediu outra receita de Rivotril. Por via das dúvidas, começou também uma novena para Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte...
- Joaquim, acorda, temos que estar as 8 horas no aeroporto.
- Tá bom, em meia hora estou pronto. Mas o que é isso?
Manuela já estava paramentada para viajar com um macacão branco e um moletom azul com capuz, que cobria toda sua cabeça. Por cima dele um protetor de rosto que chegava até o pescoço e uma máscara azul tampando nariz e boca. Estava de bota e com luvas azuis grossas.
- Eu não quero pegar Covid, homem! Sua roupa está ali, vai se vestir.
- Nunca vou sair fantasiado, você parece doida. Vou de máscara e está bom.
- Você quem sabe, anda logo ou vamos perder o voo.
Chegaram no aeroporto e tudo ia bem até quando entraram na fila para o RX. Não parecia uma fila mas sim uma roda de conversa na porta da lotérica.  As pessoas estavam bem próximas umas das outras, se empurrando e com a pressa típica de quem tem um voo para pegar. Nada diferente de antes da epidemia.
No primeiro esbarrão com um rapaz com a máscara na boca e o nariz de fora, Manuela começou a suar abundantemente. O suor descia pela testa e embaçava seus olhos escorrendo para a máscara. Tudo isso debaixo do protetor facial que a essa hora estava todo embaçado. E ela não podia limpar com medo de se contaminar com o vírus.
- Ai meu Deus, que é isso, Joaquim? Eu acho que estou me sentindo mal.
- Vamos atravessar o RX, depois nos sentamos num lugar mais afastado.
O funcionário do aeroporto praticamente empurrava as pessoas na fila como se estivesse guiando gado para o matadouro.
-Vamos pessoal, mais rápido, dá espaço aqui por favor, pode passar minha senhora.
Depois de uns 10 minutos de verdadeira aglomeração, Joaquim e Manuela conseguem passar pelo RX e chegam na área de embarque onde conseguiram dois lugares para se sentarem na fileira de prioridades.
- Não sei o que adianta essa tal de prioridades, droga!  Olha só como está cheio de jovens sentados aqui.
- Joaquim, olha só a fila se formando para o embarque. Vamos esperar todos para entrarmos sem confusão.
Finalmente o casal consegui embarcar. Manuela tinha um assento no meio, Joaquim no corredor e, na janela estava uma senhora falante e muito animada. Depois do avião levantar voo, essa senhora começou a conversar sem parar. Ela estava de máscara, mas Manuela não queria conversa mesmo assim.  Estavam muito próximas uma da outra. Manuela, muito ansiosa, começou a suar de novo e apertava as mãos para disfarçar a tremedeira. Joaquim procurava acalma-la, sem muito sucesso. A situação só foi piorando, até o momento que a senhora da janela abriu um pacote de batatas fritas, retirou a máscara e começou a comer tranquilamente, sem parar com o falatório. Para Manuela foi a gota d’agua.
- Joaquim, estou me sentindo mal, quero sair daqui.
- Como assim? Você quer saltar do avião em pleno voo?
Manuela estava branca.  A senhora da janela, muito solícita...
 - A senhora quer que a ajude a ir ao banheiro?
- Não, obrigada! Joaquim, chama alguém agora!
- Por favor, comissária, minha mulher está passando mal!
Enquanto Joaquim tentava chamar a atenção da comissária de bordo, Manuela entrou realmente numa crise de pânico, com todos seus eventos, que para quem já teve sabe como são terríveis. Tremia, respirava rapidamente e não conseguia dizer o que estava sentindo. Até que a levaram para dois metros quadrados de um espaço antes da área da cozinha do avião. A comissária chamou um médico no sistema de som do avião. Seis pessoas se levantaram e um deles tomou a frente do caso. O jovem doutor tentava conversar com Manuela, à distância e com máscara, para não piorar a situação. Depois de alguns minutos tentando acalmá-la, ele pediu a ela para tomar um comprimido de Rivotril, voltar para seu assento e tentar dormir um pouco. Manuela ficou sozinha com Joaquim, e resolveu tomar três comprimidos de uma vez.
- Já estou acostumada com esse remédio, Joaquim. Vou tomar três e tentar dormir um pouco. Mas você fica do lado daquela mulher, eu prefiro o corredor.
E assim foi feito. Voltaram os dois aos seus lugares e rapidamente Manuela dormiu profundamente.
Depois de mais umas 3 horas de voo, o avião chegou ao seu destino e ela continuava dormindo. Joaquim, preocupado, gritava pela comissária de bordo. A senhora da janela, num ímpeto esportivo, pulou os dois passageiros e saiu na frente para a fila que havia se formado no corredor. Todos desembarcaram e Manuela nada de acordar.
Depois de muitas tentativas da tripulação, foi chamada uma ambulância e levaram a passageira adormecida para um hospital.
- Eu não sei o que houve com ela, doutor. Ela tomou três comprimidos de Rivotril e dormiu.  Disse Joaquim aflito, mas tentando manter a calma.
- O senhor tem certeza que foram só três? Mesmo assim é muito. Mas ela está bem, dados vitais normais, exames normais. Não entendo por que não acorda. Vamos internar de qualquer forma para observarmos. Ela não pode sair daqui adormecida assim.
Sem que os médicos pudessem explicar, Manuela permaneceu internada nesse estado onírico misterioso por exatamente cinco dias e Joaquim, muito preocupado, permaneceu ao lado dela sem comer ou dormir direito.  Até que, no fim do quinto dia, ela acordou se sentindo bem e descansada, como se nada tivesse acontecido.
- Joaquim, o que houve? Já chegamos? Por que estamos num hospital?
- Manuela, você dormiu sete dias seguidos! Que susto você me deu! Agora nada de herança, já perdemos o prazo. Vamos voltar para casa e esquecer essa viagem desastrada.
- Mas.. como assim, Joaquim! A herança...
Manuela recebeu alta do hospital sem entender exatamente o que tinha acontecido. Os dois voltaram direto para o aeroporto como dois sonâmbulos, sem nem chegar a Capitólio, a cidade onde o pote de ouro tinha cansado de esperar por eles.